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Eu Mesma

06/11/2018
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NEM COITADINHA NEM SUPER-HERÓI

Quando se conhece alguém com deficiência, normalmente, as primeiras impressões são canalizadas unicamente nas limitações e privações que imagina-se que o novo conhecido deve ter. É comum as pessoas pararem para pensar como deve ser o mundo sem poder ver as coisas, sem poder correr, viver sem ouvir as músicas e os diversos sons das pessoas.

Pensa-se em tudo isso enquanto o tempo passa...

E então, descobre-se que o rapaz cego costuma correr com os amigos, joga bola, viaja; que o cadeirante trabalha, se apaixona, sorri; que o surdo dança, se diverte, se comunica; que as pessoas com deficiência intelectual passeiam, vão ao shopping, namoram.

E quase sem perceber, aquelas pessoas que causavam tanto embaraço, passam a ser vistas como super-heróis. Que apesar de tudo são o máximo. Mas com o tempo, o dia a dia te coloca em situações em que sentimentos como aborrecimento, incômodo, prazer, raiva, gratidão, alegria, amor, paixão e desejo passam a fazer parte da sua relação com o novo conhecido.

E então você percebe que ele não é um coitado e começa a notar que também não é um ser super especial que supera tudo. Começa a reparar em suas fraquezas e fortalezas. E, finalmente, o pêndulo se equilibra.

Basicamente, o deficiente coitadinho seria incapaz para tudo, inclusive e especialmente para tomar suas próprias decisões, ou seja, um ser digno de pena. Já o super-herói seria digno de grande admiração, em virtude de sua coragem e imensa força de vontade.

Do coitadinho espera-se submissão, humildade e gratidão. Do super-herói se exige que seja superesforçado, supercompentente, superempregado, enfim, uma superpessoa. Sendo que a admiração pelos super-heróis não dispensa uma certa dose de pena, pois muitas vezes o que se ouve são frases do tipo: “Coitado, apesar de tudo, veja como ele é corajoso e determinado”.

É a partir do convívio que podemos notar que a pessoa com deficiência não é coitadinha nem super-herói. É uma pessoa que pode ser muito bacana ou muito chata. Ter defeitos inaceitáveis ou virtudes raras. Afinal, são pessoas como todas as outras.

Embora os preconceitos ainda estejam muito presentes, permeando as relações entre deficientes e não deficientes, é certo que uma nova postura diante dos cidadãos com deficiência está sendo gradativa, mas sistematicamente assimilada pela sociedade.

Nem coitadinha nem super-herói. Apenas uma pessoa comum, com potencialidades de desenvolvimento e algumas dificuldades específicas.

 

Letícia Sader – tetraplégica, formada em direito e funcionária pública estadual





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